|
|
 |
|
|
|
Diário de Bordo |
|
Instrutor de Campo em Itaipava-ES: Caio Azevedo |
Agosto 2009
O mestre (Sr. Celso) já era nosso conhecido e parceiro nos trabalhos de conservação de albatrozes. Mas ele acaba de trocar de embarcação, uma embarcação de tamanho reduzido quando comparada com a embarcação anterior e que ainda não possui toriline instalado! Como ele é conhecedor das medidas mitigadoras que propomos para a conservação dos albatrozes, ele vem realizando a largada do material de pesca já tarde da noite, evitando a captura incidental, porém ele é ciente de que utilizando apenas esta medida (largada noturna) ainda esta correndo o risco de capturá-las! Por isso já estamos providenciando a instalação de um toriline nesta embarcação.
De uma forma geral nosso embarque foi bastante tranqüilo, uma viajem bastante curta (09 dias de mar) quando comparada com os cruzeiros triviais de espinheleiros pelágicos, isso para que o peixe chegue ao mercado o mais fresco possível!
Além do cruzeiro curto e da largada noturna, outra peculiaridade desta pescaria foram as configurações do material de pesca, o mestre adotou o comprimento das linhas de pesca e dos cabos das bóias mais longos. Isso confere ao espinhel uma configuração que permite a captura de peixes em maiores profundidades (80-100 metros), pescando geralmente diversas espécies de atum, essa configuração também reduz a captura incidental de tartarugas marinhas.
Apesar de não terem ocorrido capturas incidentais de aves marinhas, as observações foram bastante ricas! Diversas espécies estiveram seguindo a embarcação durante todo o cruzeiro. Foram observadas diariamente indivíduos das espécies: Diomedea sp., Macronectes giganteus, Thalassarche chlororhynchos, Thalassarche melanophris, Procellaria conspicillata, Procellaria aequinoctialis, Fulmarus glacialoides, Daption capense, Puffinus gravis e Oceanites oceanicus. Felizmente nenhuma ave foi capturada!
Além do show de riqueza das aves, durante o cruzeiro nos deparamos com uma família de orcas (um casal e um filhote), grupo de golfinhos e grupo de cachalotes!
O mar estava relativamente calmo (nível 03 na escala Beaufort), mas como a embarcação é de tamanho reduzido, a sensação é de um mar bem mais revolto, se eu disser que cai no convés, isso não servirá de parâmetro, pois ainda que esteja acostumado a embarcar, não tenho a mesma experiência que os pescadores, mas vocês podem ter uma idéia de como o barco balançava, pois durante os trabalhos de convés, 3 pescadores caíram mais de uma vez no convés!
Enfim companheiros, espero que tenha conseguido compartilhar um pouco dessa nova etapa de meu trabalho, do qual estou bastante positivo e entusiasmado!
Olá companheiros!
Bom... Primeiramente, antes de me apresentar eu gostaria de compartilhar minha felicidade e entusiasmo com todos os colegas Guardiões dos Albatrozes, estou muito contente de ingressar neste seleto grupo de pessoas que dedicam seu trabalho e esforço por esta nobre causa que é a conservação de tais aves tão magníficas!
Voltando as apresentações... Meu nome é Caio Azevedo Marques, sou um biólogo brasileiro que vem atuando na área da Biologia Marinha, realizando pesquisas cientificas e monitoramentos ambientais entre outros trabalhos aplicados a conservação de ambientes naturais e suas biodiversidades. Acabo de ser selecionado para assumir uma posição de Instrutor de Campo ATF_Abatross Task Force, aqui no Brasil, mais especificamente no Estado do Espírito Santo, no município de Itapemirim, no distrito de
ITAIPAVA, onde existe uma comunidade tradicional de pesca, muito
diversificada e especializada. A frota de Itaipava e seus pescadores ficaram muito famosos nos mais diversos portos do nosso País, quando os pescadores desta comunidade começaram a migrar para outros portos de grande importância econômica/comercial de outras cidades e atuar nas mais diversas embarcações e pescarias das frotas destes portos, destacando-se pela agilidade e pelo conhecimento de pesca. Hoje Itaipava é muito conhecida por possuir a
maior produção de Atum de nosso País e atuar com uma pescaria totalmente direcionada para a captura de Dourados.
Todo este potencial pesqueiro da frota de Itaipava representa conseqüentemente uma potencial
ameaça para as aves marinhas... E apesar de todo este potencial pesqueiro e de toda a importância econômica que esta frota sustenta, nossos conhecimentos sobre a dinâmica destas pescarias é realmente ínfimo para que possamos
sugerir possíveis medidas mitigadoras. Então a estratégia que traçamos e que já foi iniciada é nos aproximarmos efetivamente deste porto, das embarcações e dos pescadores, conhecendo seus hábitos, costumes e técnicas, e nos apresentarmos como parceiros e colaboradores. Criando este vinculo com os atores locais, conseguiremos espaço para apresentarmos toda a problemática que esta por trás da captura das aves, e que juntos podemos superara estes problemas,
protegendo as aves e favorecendo suas produções simultaneamente...
Na ultima semana de janeiro estive no distrito de Itaipava acompanhado de um colega (ex-instrutor de campo ATF), que por ser natural da região já havia iniciado um trabalho na região de reconhecimento e apresentação aos mais diversos atores locais. Tive a oportunidade de conhecer e firmar parcerias com a
Associação de Pescadores e Armadores do Distrito de Itaipava (APEDI), que sem duvida são nossos maiores parceiros locais, inclusive estão cedendo um espaço físico na própria Associação para que instalemos um escritório local. Além da
APEDI visitamos outros atores locais de extrema importância para nos consolidemos como parceiros efetivos do setor pesqueiro da região, como por exemplo, a
sala rádio (que mantém contato com as embarcações que estão no mar em atividade de pesca). Outros pontos de concentração de pescadores foram visitados, para criar todo um envolvimento com a comunidade pesqueira... dentre estes pontos de concentração, sem duvida os mais importantes são o
porto de desembarque de pescados, que na realidade ainda é realizado na própria praia (estão construindo um proto, que facilitara e muito os desembarques), e também um
bar/restaurante, que fica próximo do porto (sem dúvida é o maior ponto de encontro dos pescadores!). Em nossa visita ao porto de desembarque, acompanhamos um desembarque de Dourado, onde fizemos ótimos contatos com pescadores, mestres de embarcações e até mesmo com moradores em acompanham os desembarques.
Essa introdução na comunidade pesqueira é realmente a melhor forma de nos aproximarmos dos atores locais, formando parcerias de verdade e conquistando a confiança e colaboração de todos! Não tratasse apenas de uma relação de trabalho, muito delicada e de muita dedicação, mas sim uma verdadeira relação de doação a
pessoas e causas que realmente acreditamos serem merecedoras de uma situação diferente das que temos presenciado!
Vamos reverter este quadro!
Diário ATF referente ao embarque junto à frota de Itaipava-ES.
Itaipava, 20 de abril de 2008.
Ola companheiros, meu nome é Caio, sou o instrutor de campo do Programa ATF_Força Tarefa Albatroz, designado para os trabalhos referentes ao território capixaba. Como noticiado anteriormente, o Projeto Albatroz inaugurou recentemente uma nova base em Itaipava, distrito do município de Itapemirim (Litoral Sul do Espírito Santo), e desde então, estamos trabalhando afinco junto desta rica comunidade pesqueira.
Acabo de retornar do meu primeiro embarque referente à frota de Itaipava. Este não teve pretensão de testar nenhuma medida mitigadora, foi mais um embarque para reconhecimento de seus métodos de pesca e das fainas abordo. Este reconhecimento é fundamental para avaliar a aplicabilidade de medidas mitigadoras e execução de testes junto da embarcação.

Os cruzeiros de pesca da região costumam ter duração inferior (15-18 dias) quando comparados às frotas de Santos e Itajaí (25-30 dias), isso acontece principalmente por conta do porte das embarcações. A frota de Itaipava é composta por embarcações menores (10-15 metros) que as outras duas (15-28 metros).
Mas o embarque em questão teve duração reduzida, por forças maiores que estas dimensões inferiores...

Partimos do porto de Itaipava no dia 07 de abril de 2008, abordo do Veremos, mestrado por Marcelo (Gato) e equipado com espinhel
"longline", este petrecho de pesca é utilizado para capturar principalmente o peixe Meca e Cações. Navegamos durante três dias em condições de mar bastante agradável, até o pesqueiro,
"Elevação do Rio de Janeiro", aproximadamente 300 milhas de Cabo Frio (porto mais próximo).
No final de tarde do dia 10, realizamos nossa primeira largada do espinhel, este composto por um carretel (tambor) com aproximadamente 23 milhas de linha madre (nylon de 4 milímetros de espessura) e 630 anzóis. Para direcionar a pesca aos cações, foram reduzidos os cabos que prendem as bóias a linha madre, com isso reduzindo a profundidade de atuação do espinhel (deixando este ainda mais superficial). Este direcionamento realmente funcionou! No dia seguinte, durante o recolhimento do material de pesca, que pernoita na água, foram capturados 19 tubarões azuis (chamado na região de tintureira, mas é diferente da tintureira com o corpo rajado), foram capturados também, dois peixes Meka e quatro peixes Ratos.

O segundo lance aconteceu no dia subseqüente, seguindo as mesmas diretrizes do primeiro, mas com captura inferior, tubarão azul = 9, meka = 2, rato = 2, e a captura de uma raia preta entregue de volta ao mar.
Neste início de pescaria, não tivemos a companhia de nenhuma ave marinha, apareceram apenas no final do segundo recolhimento, duas alma-de-mestre e uma pardela-de-sobre-branco.
E quando começamos a realizar nosso terceiro lançamento...
Durante a terceira largada, (ainda bem no início) a tripulação avistou uma bóia solta no mar, perdida por alguma embarcação japonesa, eles costumam recolher este tipo de material e adicionar ao próprio material. Durante a manobra para recolher a bóia, desengatar a marcha e engatar ré para diminuir a velocidade, houve um forte ruído vindo da casa de máquinas.
Após este ruído o mestre não conseguia mais engatar nem frente nem ré!
A operação de largada foi paralisada, e os tripulantes responsáveis pelo motor foram verificá-lo junto do mestre. Depois de alguns minutos constataram que o problema era o disco da caixa de embreagem, a principio acreditaram na chance de virar o disco e o motor funcionar apenas para frente! Mas quando o disco foi removido e avaliado com cautela, esta possibilidade foi descartada!
Estávamos a mais de 300 milhas da costa, e sem nenhum tipo de propulsão, o barco ficou a deriva... ao gosto das ondas e dos ventos...
Pedimos socorro via rádio e verificamos as embarcações que estivessem na região, para dar apoio (alguém que tivesse um disco sobressalente igual ou que nos rebocasse), o barco mais próximo estava a 80 milhas, outro espinheleiro de Itaipava que deixou o porto no mesmo dia que agente... ou seja, tinha poucos dias de pesca e se nos rebocasse para terra, também deixaria de pescar e não conseguiria nem pagar as despesas da saída, que são altíssimas!
Mesmo assim este barco veio ate nós, para nos rebocar ate uma área onde encontraríamos outra embarcação que estivesse voltando para terra.
- Tivemos que ser bem ágeis para retirar o material que já fora largado antes do incidente!
- Puxamos mais de uma milha de espinhel sem a ajuda do guincho, apenas com as mãos!
Aliviados com a chegada do socorro já no final da noite, esperamos o amanhecer e então fomos rebocados, enquanto recolhiam o material que haviam largado no dia anterior.
Levamos um dia para sermos rebocados ate outra embarcação que estava a 100 milhas de distancia, rumo a costa.
Chegando até eles, trocamos as amarras de embarcação e continuamos mais esta nova peleja... Este segundo reboque foi ainda mais difícil, a outra embarcação, também de Itaipava, já estava carregada, com vento e ondas aumentando...
Levamos mais quatro dias sendo rebocados ate o porto de Itaipava, sendo que no segundo dia, as amarras estouraram diversas vezes no caminho, por força das ondas, que aumentaram bruscamente!
Mas os outros dias de uma forma geral foram mais calmos, aproveitando estes, com muita conversa, aprendizado e troca de informações, com o mestre e todos os tripulantes, nos aproximando assim ainda mais. Mostraram se muito receptivos e dispostos a colaborar com os futuros embarques.

Como eles possuem televisão e aparelho de DVD no barco, assistimos ao vídeo "Trabalhadores do mar" do Projeto Albatroz, que mostra os trabalhos que já vem sendo realizados junto às frotas pesqueiras de Santos e Itajaí, com depoimento dos pescadores sobre a eficiência e aplicabilidade das medidas mitigadoras (lula azul, toriline e largada noturna).
No dia 17 de abril de 2008 chegamos sãos e salvos, no porto de Itaipava.

Apesar de todas estas dificuldades...
Foi muito interessante observar os diversos materiais alternativos que eles utilizam em suas pescarias. No lugar das sofisticadas bóias-rádio, utilizadas pelas frotas convencionais, eles utilizam apenas bóias-bandeira, semelhantes às utilizadas em redes de pescarias mais costeiras.
As bóias que ficam entre as bóias-rádio, no caso bóia-bandeira, também são bem diferentes do usual. Utilizam bolas de borracha, destas compradas em bancas, para crianças brincarem de jogar bola, apenas algumas bóias são próprias da pesca (muitas destas achadas em alto mar durante a navegação, como a descrita em nosso incidente).
De maneira mais critica, considero estas pescarias da região, como pesca industrial, apenas pelo alto valor de mercado dos peixes que capturam, que pela tecnologia empregada propriamente dita. Haja vista os materiais alternativos mencionados, como o tamanho das embarcações e o próprio comprimento do
"longline" e número de anzóis. Chamo atenção ainda para o tempo que gastam em suas viagens, possuem autonomia para pescar mais dias, mas não tem tanta ganância produtiva, preferem fazer viagens menores e poder estar junto da família.
|
| |
|
|
|
|
|
|
|