Diário de Bordo
Instrutor de Campo em Itajaí - SC: Ricardo Hoinkin
Itajaí, 28 de Janeiro de 2008.
Diário de Bordo - NPq Soloncy Moura

Treinamento Programa ALBATROSS TASK FORCE - Projeto ALBATROZ
Ricardo Manoel da Silva Hoinkis
Instrutor de Campo em Itajaí
 

Diário de Bordo - Cruzeiro 04/08

De volta a terra após 22 dias de mar e 18 lances de pesca; retornei munido de importantes informações que me foram fornecidas pelos meus companheiros de mar, tripulantes da embarcação espinheleira Yamaya III, os quais dividiram comigo suas concepções e experiências quanto à implementação e efetividade das medidas de mitigação. Essas informações tornam-se e certamente serão imprescindíveis para a diminuição da captura incidental de aves oceânicas.

As áreas de pesca ficaram compreendidas entre os paralelos 23° a 26°S e 37° a 44°W, em profundidades entre os 2.131 aos 4.070 metros. Os lances foram realizados na grande totalidade do cruzeiro em situações de mar bastante calmos.

Fortuitamente não houve captura de aves. Em parte, foi constatado que as áreas de pesca apresentaram uma baixa ocorrência de aves, e conseqüentemente baixa abundância, uma vez que as condições climáticas nas áreas não favorecem a presença de grande aglomeração de aves durante esta época do ano. Este fato ocorre devido às elevadas temperaturas da água, alem da constante calmaria em mar na área supracitada, fato este que decorre em uma baixa intensidade de ventos e desfavorece a presença das mesmas. Mesmo assim, pude observar eventualmente exemplares de Alma-de-mestre (Oceanites oceanicus); Pardela-preta (Procellaria aequinoctialis); Pardela-de-óculos (Procellaria conspicillata); Petrel-do-atlântico (Pterodroma incerta); Petrel-de-cara-branca (Pterodroma mollis); Pardela-de-sobre-branco (Puffinus gravis); Albatroz-de-nariz-amarelo-do-atlantico (Thalassarche chlororhynchos); Atobá-grande (Sula cf dactylatra); Gaivotão (Catharacta spp.); Pardela-de-bico-amarelo (Calonectris diomedea); Skuas (Stercorarius parasitucus); e Stercorarius pomarinus. Tais espécies, na maioria das vezes ficaram representadas entre um a dois exemplares por espécie.

Durante nossa viagem até o pesqueiro para realização do primeiro lance de pesca, foi realizada a troca das "bandeiras" (fitas) do toriline (espantador de aves) presente na embarcação. Esta tarefa contou com a participação de boa parcela dos tripulantes, já que os mesmos relataram se tratar de um modelo bastante funcional e aceito por eles. Outra atividade de grande relevância foi a educação ambiental, realizada através da troca de informações mediante conversas informais entre o instrutor e a tripulação. Esta troca de informações ocorreu praticamente ao longo de todo o cruzeiro e demonstrou-se bastante produtiva sob os diversos enfoques abordados contribuindo para com o trabalho de conscientização dos respectivos pescadores.

A embarcação já faz uso de algumas medidas de mitigação, quando o mestre as julga necessárias durante o lançamento do petrecho ao mar. A medida mais utilizada, segundo ele, é o tingimento de iscas (lulas) e caso necessário seu emprego simultâneo com o toriline; há ainda a largada noturna, a qual ocorre de forma parcial em todos os lances de pesca.

Ao final do cruzeiro, mesmo após a troca de informações e instruções sobre as medidas de conservação das aves oceânicas visando à pesca produtiva para com o segmento, nota-se que há um longo caminho a ser percorrido. Sob o meu ponto de vista, este é um trabalho de longo prazo, não apenas de conscientização mais de educação ambiental. Pois é através desta ferramenta que buscamos a sustentabilidade ambiental sobre todos os aspectos da biodiversidade; não esquecendo que o ser humano (Homem) encontra-se inserido neste contexto e é parte fundamental para o avanço deste processo.

01/08 - Soloncy Moura

Após ter sido selecionado para integrar a equipe do programa Albatross Task Force em Itajaí, fiquei bastante entusiasmado para iniciar minhas atividades como ATF. Sendo assim, desde o início do mês estou em processo de treinamento quanto às atividades a serem realizadas no âmbito do programa.

A etapa de treinamento consistiu primeiramente no estudo sobre a caracterização das aves oceânicas que interagem com a pesca de espinhel pelágico no Brasil; juntamente as informações sobre a caracterização das aves ocorrentes na região, foram me disponibilizados o Plano de Ação Nacional para a Conservação de Albatrozes e Petréis (PLANACAP) dentre outros documentos e materiais informativos que possibilitassem minha familiarização com as atividades desenvolvidas no projeto e conhecimento sobre as medidas mitigadoras como toriline, tingimento das iscas e largada noturna.

Após essa etapa tive a oportunidade de embarcar no navio de pesquisa Soloncy Moura para aprofundar meu aprendizado na prática. Dentre os membros do Projeto Albatroz que me auxiliaram nesta etapa, cito o colega Miguel Lorenzi, o qual teve um papel fundamental quanto a transmissão de informações para aprimoramento do meu "olhar" no que diz respeito a identificação das aves, ele sempre munido de seus guias que muito me auxiliaram e certamente me farão companhia em minhas viagens futuras. Também tive a oportunidade de viajar com um observador de bordo muito experiente, o Rodrigo Maçaneiro de Leão, que passou informações imprescindíveis quanto a percepção e a forma de trabalho junto a frota comercial.

Soltamos as amarras do cais de Itajaí dia 18 de janeiro às 18h30min, e iniciamos a navegação em mar calmo com uma brisa de sudeste que anunciava que teríamos chuva pela noite e mudanças nas condições de mar. Navegamos sentido sul, mais precisamente até a altura do Cabo de Santa Marta a uma velocidade constante de aproximadamente 8 milhas náuticas por hora, o mar estava calmo. Segundo o mestre Dalmo, antigo mestre do espinheleiro João Paulo III, entre a barra de Itajaí e o local escolhido para realização do primeiro lance de pesca nos teríamos que percorrer uma distância de aproximadamente 186 milhas.

O cruzeiro objetivou em caráter primordial o teste com anzóis do tipo J e do tipo circular, teste este realizado pelo programa Interação Tartarugas Marinhas e Pesca desenvolvido pelo projeto Tamar/ICMBio.

Durante nossa viagem até o pesqueiro escolhido, embora trazendo conosco abordo um par de torilines, anteriormente testados, optamos por confeccionar um novo modelo cuja linha principal consistia na utilização de fio de nylon de 2 mm, material este mais leve e de fácil manuseio se comparado ao cabo utilizado nos demais torilines trazidos a abordo, outro quesito testado foi o comprimento do cabo principal, de forma que este ultrapasse alguns metros da "zona" de afundamento do espinhel, e verificar sua eficácia em relação a redução da captura incidental.

Geralmente nesta época do ano há uma baixa ocorrência de avistagem de aves que porventura cruzam as áreas utilizadas para a pesca no sul do país. Isso ocorre em virtude da época de reprodução e nidificação de diversas espécies na porção austral do hemisfério sul, mesmo assim pude observar em maior abundância as pardela-de óculos, sempre nos acompanhando durante a viagem e ocasionalmente alguns albatrozes-de-nariz-amarelo (juvenis e adultos) e diversas outras espécies de petréis (Bobo-grande-de-sobre-branco, Pardela-do-bico-amarelo, pardela-do-Cabo-Verde, Pardela-preta etc).

Ao todo foram realizados cinco lances de pesca, todos realizados com mar entre 2 a 4 na escala Beauford. A área de pesca compreendeu a porção austral do cabo de Santa Marta acompanhando a quebra do talude até a região proximal a barra de Itajaí. Dentre os recursos pesqueiros os elasmobrânquios foram os mais capturados, sendo que a principal espécie, o tubarão-azul Prionace glauca, foi composta em grande maioria de fêmeas em estágio reprodutivo avançado ou pós-parto. O lançamento do equipamento de pesca ocorria por volta das 18h00min, ou seja, duas horas antes do por do sol; e era recolhido por volta das 06h30min da manhã do dia seguinte. Houve dois lances com a utilização do toriline, embora devido a baixa incidência de aves na área de pesca, poucas foram as informações diagnosticadas com ou sem a utilização desta medida.

Fortuitamente não houve captura de aves e/ou tartarugas, embora a pesca também não tenha sido significativamente satisfatória do ponto de vista produtivo, pois nesta época a frota comercial desloca-se preferencialmente para região da Ilha de Trindade (litoral do Espírito Santo), ou então ultrapassa as 200 milhas da Zona Econômica Exclusiva, dirigindo-se para a elevação do Rio Grande.

Minha chegada ao porto de Itajaí ocorreu no dia 25 de janeiro às 03h00min. Certamente o embarque foi bastante produtivo do ponto de vista do treinamento almejado, capacitando-me a atuar na frota comercial cujo primeiro embarque esta previsto para o início de março.

 
 
 
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